Esquizofrenia e sociedade: estigmas, direitos e inclusão social
Palavras-chave:
Esquizofrenia, Estigma, Psicologia Social, Religiosidade, Vulnerabilidade socialResumo
O presente estudo analisa os estigmas associados à esquizofrenia, articulando conceitos da psicologia social com evidências empíricas e históricas. Trata-se de uma revisão bibliográfica narrativa, realizada em bases de dados como SciELO, PubMed, repositórios universitários e plataformas governamentais, contemplando publicações prioritariamente dos últimos cinco anos (2020–2025), além de obras clássicas relevantes. Foram priorizados estudos que abordam a realidade latino-americana, em português e inglês. A análise foi estruturada em quatro eixos principais: (1) origens históricas do estigma; (2) manifestações contemporâneas em contextos brasileiros; (3) impactos em pessoas com esquizofrenia em situação de rua ou extrema vulnerabilidade; (4) legislações e políticas públicas como respostas e desafios de implementação. Os resultados indicam associação entre estigma, desigualdades sociais e dificuldades de acesso ao cuidado em saúde mental, especialmente em populações vulnerabilizadas. Destaca-se, ainda, o papel ambivalente da religiosidade, que pode atuar tanto como estratégia de acolhimento quanto como fator que dificulta o diagnóstico e o tratamento. Embora a Lei nº 10.216/2001 represente um avanço no campo normativo, sua efetividade depende da implementação de políticas públicas intersetoriais. Conclui-se que a esquizofrenia deve ser compreendida não apenas como um diagnóstico clínico, mas como um fenômeno social atravessado por processos de exclusão, preconceito e resistência, o que impõe desafios à promoção da cidadania e à efetivação do cuidado em saúde mental.
Referências
ARBEX, Daniela. Holocausto brasileiro. São Paulo: Geração Editorial, 2013.
ALVES, J. S.; TORRES, A. R. Religiosity and spirituality in mental health: nurses' training, knowledge and practices. Revista Brasileira de Enfermagem, v. 75, p. e20200345, 2022. Disponível em: https://www.scielo.br/j/reben/a/NWzcNsbrBgwHyQbYYNKXyLK/?lang=pt. Acesso em: 29 dez. 2025.
ARENDT, Hannah. A condição humana. 10. ed. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2007.
ARENDT, Hannah. Origens do totalitarismo. 3. ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2012.
ARONSON, Elliot; WILSON, Timothy D.; AKERT, Robin M.; SOMMERS, Samuel R. Psicologia social. 9. ed. São Paulo: LTC, 2018.
BAQUERO, O. S. Ecologia de violências nas periferias urbanas em tempos de necropolítica. Physis: Revista de Saúde Coletiva, Rio de Janeiro, v. 35, n. 2, p. e350201, 2025. Disponível em: https://www.scielo.br/j/physis/a/Kb9mVFVbDkJyLT3cxwMdtqp/. Acesso em: 18 dez. 2026.
BRASIL. Lei nº 10.216, de 6 de abril de 2001. Dispõe sobre a proteção e os direitos das pessoas portadoras de transtornos mentais e redireciona o modelo assistencial em saúde mental. Diário Oficial da União: seção 1, Brasília, DF, 9 abr. 2001. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/leis_2001/l10216.htm. Acesso em: 9 nov. 2025.
BRASIL. Ministério da Saúde. Portaria nº 336, de 19 de fevereiro de 2002. Estabelece diretrizes para a implantação e funcionamento dos Centros de Atenção Psicossocial. Diário Oficial da União, Brasília, DF, 2002. Disponível em: https://italorodrigo.com.br/wp-content/uploads/2018/05/Portaria-366-de-19-de-Fevereiro-de-2002-CAPS.pdf. Acesso em: 9 nov. 2025.
BRASIL. Ministério da Saúde. Portaria nº 3.088, de 23 de dezembro de 2011. Institui a Rede de Atenção Psicossocial (RAPS) no âmbito do SUS. Diário Oficial da União, Brasília, DF, 23 dez. 2011. Disponível em: https://resende.rj.gov.br/conteudo/downloads/Portaria-3088-2011.pdf. Acesso em: 21 nov. 2025.
BRASIL. Ministério da Saúde. Projeto Terapêutico Singular. Caderno de Atenção Psicossocial, n. 3. Brasília, DF: Ministério da Saúde, 2015. Disponível em: https://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/caderno_atencao_psicossocial_3_pts.pdf. Acesso em: 9 nov. 2025.
BRASIL. Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome. Brasil fora do Mapa da Fome: balanço atualizado. Brasília, DF: MDS, 2025. Disponível em: https://www.gov.br/mds/pt-br/acoes-e-programas/brasil-sem-fome/balanco/balanco_atualizado_mapa_da_fome.pdf. Acesso em: 19 dez. 2025.
BRITO, C.; SILVA, L. N. da. População em situação de rua: estigmas, preconceitos e estratégias de cuidado em saúde. Ciência & Saúde Coletiva, v. 27, n. 1, p. 151-160, jan. 2022. Disponível em: https://www.scielo.br/j/csc/a/7LPJ5Lk7TZkZSG9fnprTPyg/?format=html&lang=pt. Acesso em: 9 out. 2025.
CORRIGAN, Patrick W. et al. Self-stigma and the "why try" effect: impact on life goals and evidence-based practices. World Psychiatry, v. 8, n. 2, p. 75-81, 2009. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/19516923/. Acesso em: 9 out. 2025.
COSTA, M. I. S.; LOTTA, G. S. De "doentes mentais" a "cidadãos": análise histórica da construção das categorias políticas na saúde mental no Brasil. Ciência & Saúde Coletiva, Rio de Janeiro, v. 26, supl. 2, p. 3467-3479, 2021. Disponível em: https://www.scielosp.org/article/csc/2021.v26suppl2/3467-3479/pt/#. Acesso em: 9 out. 2025.
DAMIÃO JUNIOR, Maddi. Fundamentos do método de Nise da Silveira: clínica, sociedade e criatividade. Junguiana, São Paulo, v. 39, n. 1, p. 91-100, 2021. Disponível em: https://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0103-08252021000100007. Acesso em: 4 abr. 2026.
FERREIRA, A. A. et al. Desafios no diagnóstico da esquizofrenia diante do uso crônico de substâncias. Revista Foco, v. 18, n. 10, p. e10110, 2025. Disponível em: https://ojs.focopublicacoes.com.br/foco/article/view/10110. Acesso em: 9 nov. 2025.
FOUCAULT, Michel. História da loucura na idade clássica. 2. ed. São Paulo: Perspectiva, 2006.
GARCIA, F. D. et al. IV Censo de população em situação de rua do município de Belo Horizonte 2022: BH + Inclusão. Belo Horizonte: Itrium Consultoria, 2023. Disponível em: https://www.medicina.ufmg.br/topicos/censo-pop-rua-2022/. Acesso em: 19 dez. 2025.
GOFFMAN, Erving. Estigma: notas sobre a manipulação da identidade deteriorada. 4. ed. Rio de Janeiro: LTC, 1988.
IBGE. Panorama do Censo 2022. Rio de Janeiro: Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, 2023. Disponível em: https://censo2022.ibge.gov.br/panorama/?localidade=BR. Acesso em: 4 jan. 2026.
LEAL, V. P. Estigma contra a esquizofrenia entre médicos: papel da estereotipagem negativa e periculosidade percebida. 2021. Dissertação (Mestrado em Ciências Médicas) – Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis, 2021. Disponível em: https://repositorio.ufsc.br/handle/123456789/226944. Acesso em: 9 out. 2025.
LOCH, A. A. et al. Hearing spirits? Religiosity in individuals at risk for psychosis: results from the Brazilian SSAPP cohort. Schizophrenia Research, v. 204, p. 353-359, 2019. DOI: 10.1016/j.schres.2018.09.020. Disponível em: https://doi.org/10.1016/j.schres.2018.09.020. Acesso em: 2 jan. 2026.
MALINOWSKI, F. et al. Slum living predicts psychosis severity in first-episode patients. Nature Cities, v. 1, p. 576-586, 2024. Disponível em: https://www.nature.com/articles/s44284-024-00109-6. Acesso em: 19 nov. 2025.
MONTEIRO, D. D. et al. Espiritualidade/religiosidade e saúde mental no Brasil: uma revisão. Boletim da Academia Paulista de Psicologia, São Paulo, v. 40, n. 98, 2020. Disponível em: https://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1415-711X2020000100014. Acesso em: 2 jan. 2026.
MOURA, L. M. S. Preconceito, religiosidade e representações sociais: articulações sobre a esquizofrenia. 2021. Dissertação (Mestrado em Psicologia Social) – Universidade Federal da Paraíba, João Pessoa, 2021. Disponível em: https://repositorio.ufpb.br/jspui/bitstream/123456789/32946/3/LinnikerMatheusSoaresDeMoura_Dissert.pdf. Acesso em: 2 jan. 2026.
NASCIMENTO, L. A. do; LEÃO, A. Estigma social e estigma internalizado: a voz das pessoas com transtorno mental e os enfrentamentos necessários. História, Ciências, Saúde – Manguinhos, Rio de Janeiro, v. 26, n. 1, p. 103-121, jan./mar. 2019. Disponível em: https://www.scielo.br/j/hcsm/a/sNMq8fztJLGCfvsQ47ckrSn/?format=html&lang=pt. Acesso em: 7 dez. 2025.
OLIVEIRA, B. C. D. et al. A experiência da espiritualidade no enfrentamento e prevenção do comportamento suicida. Research, Society and Development, v. 14, n. 2, p. e9314250075, 2025. DOI: 10.33448/rsd-v14i2.50075. Disponível em: https://rsdjournal.org/rsd/article/download/50075/39168/509575. Acesso em: 29 dez. 2025.
OLIVEIRA, E. F. A. O financiamento federal dos CAPS no Brasil: a caixa de Pandora. Serviço Social & Sociedade, São Paulo, n. 141, p. 58-74, 2024. Disponível em: https://www.scielo.br/j/sssoc/a/tpqRzFfjvLD8tjN8DGy7Gjd/?lang=pt. Acesso em: 4 jan. 2026.
ONOCKO-CAMPOS, R.; FURTADO, J. P. Itinerários terapêuticos de usuários que abandonaram o cuidado em saúde mental. Saúde em Debate, São Paulo, v. 45, n. 128, p. 91-104, jan./mar. 2021. Disponível em: https://www.scielosp.org/article/sdeb/2021.v45n128/91-104/. Acesso em: 9 out. 2025.
ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE. CID-11: Classificação Internacional de Doenças, 11ª revisão. Genebra: OMS, 2019. Disponível em: https://icd.who.int/browse11/l-m/en. Acesso em: 2 jan. 2026.
PIETKIEWICZ, I. J. et al. Revisiting false-positive and imitated dissociative identity disorder. Frontiers in Psychology, v. 12, p. 637929, 2021. Disponível em: https://www.frontiersin.org/journals/psychology/articles/10.3389/fpsyg.2021.637929/full. Acesso em: 29 dez. 2025.
PIRES, R. R. et al. O cuidado em saúde mental e a participação política de usuários e familiares na ressignificação do estigma sobre os transtornos mentais. Physis: Revista de Saúde Coletiva, Rio de Janeiro, v. 33, p. e33038, 2023. Disponível em: https://www.scielosp.org/article/physis/2023.v33/e33038/#. Acesso em: 9 out. 2025.
SANTOS, Juarez Cirino dos. A lei antimanicomial: um modelo revolucionário de saúde mental. Boletim IBCCRIM, São Paulo, v. 31, n. 373, p. 5-9, 2023. DOI: 10.5281/zenodo.10186062. Disponível em: https://publicacoes.ibccrim.org.br/index.php/boletim_1993/article/view/828. Acesso em: 4 abr. 2026.
SANTOS, S. R. L. dos. História da criação da esquizofrenia. Revista Contemporânea, v. 5, n. 7, p. e8606, 2025. Disponível em: https://ojs.revistacontemporanea.com/ojs/index.php/home/article/view/8606. Acesso em: 19 nov. 2025.
Downloads
Publicado
Edição
Seção
Licença
Copyright (c) 2026 FACSETE Health Sciences

Este trabalho está licenciado sob uma licença Creative Commons Attribution-NonCommercial-ShareAlike 4.0 International License.
